Entrevista — Gustavo Scopel: card games, comunidade e o primeiro deck
Gustavo Scopel é uma das principais figuras por trás da cena de card games em Cianorte. Jogador desde os anos 1990, ele viu os jogos mudarem, a comunidade crescer e o projeto de card games se tornar uma porta de entrada para novos jogadores no Centro Cultural.
Nesta entrevista, ele fala sobre o começo da cena local, a diferença entre jogar online e com cartas físicas, o papel cultural dos card games, a chegada de novos jogadores e o convite para quem ainda tem receio de sentar à mesa pela primeira vez.
Quem é Gustavo Scopel dentro da comunidade?
Cianorte Card Masters: Gustavo, para quem nunca participou dos encontros, quem é você dentro da comunidade Cianorte Card Masters?
Gustavo Scopel: Eu sou, se não o primeiro, uma das primeiras pessoas que trouxe card game para Cianorte, em 1994.
Eu e uma turma de amigos jogamos desde então. Há alguns anos fundamos um projeto junto com a Prefeitura Municipal de Cianorte, por meio da Secretaria de Cultura. É o projeto de card games, onde a população pode nos procurar no Centro Cultural para aprender a jogar.
A gente abrange uma grande maioria dos card games no projeto. O deck seria o baralho; não precisa ter o deck pronto. É só chegar que nós temos decks para emprestar e cartas para ensinar.
Hoje faço parte da comunidade Cianorte Card Masters e coordeno o projeto da Prefeitura.
O que mudou nos card games desde 1994?
Cianorte Card Masters: Você joga card games desde 1994. O que mudou de lá para cá, e o que continua igual na emoção de abrir um deck e jogar uma partida?
Gustavo Scopel: O card game mudou muito desde 1994. O quesito estratégia evoluiu bastante. Os jogos são mais rápidos e mais dinâmicos.
Antigamente nós tínhamos um card game mais lento, em que uma jogada errada ainda possibilitava uma margem maior para recuperação. Hoje, uma jogada errada muitas vezes custa o jogo e não permite mais consertar.
E o que ficou igual? A emoção de abrir um deck e jogar uma partida. Ver a estratégia funcionar. Sem falar na confraternização com os amigos.
Ver a sua estratégia funcionando numa mesa de jogo, uma estratégia que você planejou, é muito gratificante.
O que o card game físico tem de diferente?
Cianorte Card Masters: Muita gente conhece card games por animes, vídeos ou jogos digitais. O que essa pessoa encontra de diferente quando senta numa mesa para jogar com cartas físicas?
Gustavo Scopel: Quando a pessoa senta para jogar um card game físico, há muitas diferenças em relação aos digitais.
A primeira coisa é que você tem que fazer tudo acontecer. Você executa as jogadas, escolhe o tempo em que elas serão feitas, diferente de um card game digital, em que o computador te avisa toda hora que aquela jogada é permitida.
No físico, não tem ninguém te avisando. Você precisa fazer a jogada no tempo que determinar. Para quem gosta de jogos de estratégia, o card game físico é um desafio muito maior do que o online.
Os animes trazem uma noção do que é o card game. Só que, no anime, o protagonista vence. Na vida real, nem sempre o deck do protagonista é o que vence.
O gostoso é a execução perfeita da sua jogada com a sinergia da sua estratégia.
Card game é difícil?
Cianorte Card Masters: Para quem olha de fora, card game parece difícil. O que você diria para alguém que tem vontade de aprender, mas tem medo de não entender as regras?
Gustavo Scopel: Card game não é difícil. Ele é metódico.
Para quem tem vontade de aprender e tem medo, eu diria: não tenha medo, venha aprender. É algo natural, que a gente aprende com o tempo.
Eu aprendo assim, todos aprendem assim. Hoje você faz uma partida e joga mal. Amanhã melhora. Depois melhora de novo. Aí o jogo começa a fluir.
Não tem segredo: a gente só aprende pondo a mão na massa.
Por que card game também é cultura?
Cianorte Card Masters: O projeto acontece com apoio da Secretaria de Cultura e da Prefeitura de Cianorte. Por que card game também é cultura?
Gustavo Scopel: O card game é considerado cultura porque transmite uma linguagem, uma comunicação diferente, com valores sociais e psicológicos embutidos.
Ele tem valores estratégicos e faz parte da indústria criativa. Além disso, estimula o raciocínio e a socialização entre as pessoas.
Então o card game é um ótimo meio e uma ótima ferramenta de cultura.
O que uma pessoa desenvolve jogando card games?
Cianorte Card Masters: Além de competir, o que uma pessoa desenvolve jogando card games?
Gustavo Scopel: O card game traz inúmeros benefícios, principalmente para crianças em formação.
Ele ajuda no desenvolvimento psicológico, no desenvolvimento estratégico, na formação cognitiva e na sociabilização. Ensina a executar uma estratégia no tempo correto e a lidar com frustrações.
Você vai lidar com derrotas, porque vai perder. Também há trabalho em equipe quando o card game é jogado em dupla.
Hoje existem estudos levando card games para pessoas da terceira idade, para manter o cérebro ativo. É uma prática que você pode começar na infância e nunca mais parar.
Magic, Yu-Gi-Oh!, Pokémon e Flesh and Blood
Cianorte Card Masters: Você já passou por Magic, Yu-Gi-Oh!, One Piece, Pokémon e hoje joga bastante Flesh and Blood. O que cada jogo tem de especial para públicos diferentes?
Gustavo Scopel: Hoje eu posso dizer que Flesh and Blood, Magic e Yu-Gi-Oh! são jogos mais adultos. Por mais que Yu-Gi-Oh! tenha um anime voltado ao público infantojuvenil, o jogo em si tem estratégias mais complexas.
Pokémon já é um jogo mais infantilizado. Isso não quer dizer que um adulto não possa jogar. Ele também tem estratégia, mas é uma estratégia um pouco mais simples.
Eu mesmo jogo Pokémon. Mesmo com essa proposta mais simples, é um jogo super divertido.
Para uma criança começando, eu recomendaria Pokémon. Para um adulto, dá para começar em Flesh and Blood. Se a pessoa não se dá bem com inglês, Pokémon é uma boa porta de entrada. Se arranha o inglês, dá para encarar Flesh and Blood ou Magic.
Em nível de jogo, eu colocaria Pokémon numa faixa mais infantojuvenil. Magic, Yu-Gi-Oh! e Flesh and Blood já puxam um pouco mais para adolescente e adulto.
Deck meme ou deck competitivo?
Cianorte Card Masters: Dizem que você gosta de montar decks memes no Pokémon e decks roubados no Flesh and Blood. O que é mais divertido: ganhar bonito ou fazer o oponente perguntar “que carta é essa?”?
Gustavo Scopel: Eu gosto de montar alguns decks memes no Pokémon porque, às vezes, o deck meme de Pokémon não é meme: ele é muito forte.
Você consegue desenvolver estratégias muito legais com decks que ninguém espera e que ninguém sabe exatamente como enfrentar.
Um exemplo: hoje nós temos um deck de Alakazam e um deck de água que é muito engraçado, com quarenta energias dentro do deck. Para quem entende um pouco de Pokémon, parece maluquice. Mas o deck é muito divertido porque o oponente não sabe o que precisa fazer.
Você acaba ganhando de decks fortes do metagame usando decks memes.
Hoje o que mais me diverte é jogar com deck meme. Para mim é uma festa, porque tira a responsabilidade de ter um resultado obrigatório. O jogo fica mais fluido e mais divertido.
Mas admito que pegar um deck meta de Flesh and Blood e jogar mais competitivo também tem seu valor.
Como funciona para quem chega pela primeira vez?
Cianorte Card Masters: Como funciona um encontro para quem chega pela primeira vez? Precisa levar cartas, saber regras ou já ter deck montado?
Gustavo Scopel: Basta a pessoa querer aprender e ir até lá.
Se tiver cartas, pode levar. Mas não precisa ter. Nós temos baralhos para fornecer.
Não sabe jogar nada? Não tem problema, a gente ensina.
A pessoa escolhe o jogo de sua preferência: Magic, Flesh and Blood ou Pokémon. A gente tem ali e ensina.
É só comparecer no Centro Cultural aos domingos, das 13h30 às 18h.
A chegada de Flesh and Blood em Cianorte
Cianorte Card Masters: Qual foi uma situação marcante em que você ensinou alguém a jogar e percebeu que a pessoa “pegou o espírito” do card game?
Gustavo Scopel: Foi quando eu trouxe Flesh and Blood para Cianorte. Literalmente, quem trouxe fui eu. Eu trouxe o jogo para o projeto e ele começou a ter aceitação.
As pessoas começaram a vir: Arielson, Gorla, Akira, Alexandre. Eles passaram a frequentar e eu fui difundindo Flesh and Blood ali.
Hoje temos o Arielson, campeão regional nosso, criado aqui na nossa terra e ganhando um evento de grande porte em Maringá.
O Gorla e o Akira também sempre representam bem a cidade. São pessoas que saíram do projeto e isso me enche de alegria.
Não vou dizer que criei eles como jogadores, mas incentivei esse lazer e esse prazer. Eles seguiram o caminho como jogadores de Flesh and Blood.
E hoje poder enfrentar eles é muito gostoso.
Qual jogo começar?
Cianorte Card Masters: Para quem vem do videogame, anime, RPG ou board game, qual card game você indicaria como primeira experiência?
Gustavo Scopel: Para quem já tem uma experiência com videogame, anime, RPG ou board game, eu começaria com um card game um pouco mais sério.
Magic ou Flesh and Blood são os que nós temos mais em evidência aqui na cidade. Então são jogos em que a pessoa consegue encontrar outros jogadores com mais facilidade.
Magic está crescendo bastante. A gente tem uma turma muito boa de Magic. Inclusive eu jogo Magic também, então eu ficaria com um card game mais adulto.
O convite para quem ainda está em dúvida
Cianorte Card Masters: Qual convite você deixa para quem está lendo e pensa: “acho legal, mas talvez esse grupo não seja para mim”?
Gustavo Scopel: O meu recado é: venha, experimente. Dê a si mesmo a chance de experimentar uma vez.
Se não gostar, talvez realmente não seja para você. E tudo bem. Nós temos vários outros eventos dentro da nossa comunidade.
Temos o grupo de RPG na Biblioteca Municipal a cada quinze dias. Temos também o pessoal dos jogos de luta, que está com encontros e deve começar a promover mais atividades.
Mas se dê a oportunidade de participar e ver se você gosta ou não. Muitas vezes a pessoa tem a barreira de achar que vai chegar sem saber nada e que vão rir dela.
Ninguém vai rir de ninguém. É um ambiente onde todo mundo ajuda.
É um ambiente saudável, com muita gente disposta.
Basta a pessoa querer aprender.
O recado é: se dê a oportunidade de tentar.
Encontros de card games
Centro Cultural de Cianorte
Domingos — 13h30 às 18h
Não precisa ter deck. Não precisa saber jogar.
Se você tem curiosidade por Magic, Flesh and Blood, Pokémon ou outros card games, apareça em um encontro e conheça a comunidade Cianorte Card Masters.
Nos vemos nas mesas!
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