De brinquedo para hobby
O crescimento dos card games
Desde que comecei a colecionar e jogar TCG, tenho percebido um crescimento na busca por cartas, em sua maioria por conta de Pokémon, mas isso parece acontecer em outros card games também. O grupo de Flesh and Blood vem crescendo de forma discreta, mas é comum ver novatos perguntando sobre decks, e não apenas alguém trocando de classe. Em Pokémon, é comum ver vídeos no Instagram com adultos demonstrando seu novo interesse por Pokémon, muito pela nostalgia e pela valorização dos cards, e isso fortalece a impressão de que o interesse vem crescendo.
Agora, enquanto escrevo este texto, um artigo sobre card games foi publicado na Reuters, não só fortalecendo minha opinião, como também trazendo dados de crescimento. A Asmodee declarou que os TCGs representam 61% da receita da empresa e que esse mercado teve crescimento de 23,1%. A Hasbro também apresentou um crescimento de 27% relacionado a Magic: The Gathering em sua divisão Wizards of the Coast e Digital Gaming. [1]
Um relatório apresentado pela ICv2, um portal de notícias e revista comercial focado em cultura geek nos EUA, também apresenta o crescimento das cartas colecionáveis junto com o crescimento do hobby em geral nos EUA. Mesmo com o mercado sofrendo com novas tarifas e problemas de distribuição, o setor apresentou crescimento.
Segundo a ICv2, o mercado de hobby games cresceu 40% em 2025, chegando a US$ 3,66 bilhões. Os TCGs passaram a representar cerca de dois terços do faturamento desse mercado, que também abrange categorias como board games, jogos de cartas e dados, miniaturas e RPGs. [2]
Esses dados mostram uma realidade que talvez não condiga com a nossa aqui no interior do Paraná, mas o fato de grandes varejistas e redes estarem comercializando packs de Pokémon diz bastante sobre o hobby. Mesmo que essas empresas ainda tratem o produto como um brinquedo, há, de fato, uma procura por cartas colecionáveis.
A busca por novas formas de lazer
Algo que deve ser notado é a mudança de hábito da população jovem e adulta, que vem buscando atividades saudáveis, tanto na alimentação quanto na diminuição do consumo de álcool. Dessa forma, a válvula de escape, que antigamente era o barzinho, está se dispersando para outros ambientes, como academia, pedal, trekking e outras atividades.
Uma pesquisa no Reino Unido apontou que jovens da geração Z têm preferido socializar em ambientes sem álcool, buscando boliche, kart, golfe e outros tipos de entretenimento. Isso também é impulsionado pelo aumento do custo de vida, fazendo com que as pessoas procurem reduzir os gastos com socialização e entretenimento. [3]
Já quanto aos millennials, ou geração Y, e também à geração X, a relação com o álcool não muda muito, mas, ainda assim, existe uma tendência de busca por atividades de lazer alternativas. Devido a uma rotina mais carregada, com filhos e mais responsabilidades, festas que varavam a madrugada não são mais uma opção. As gerações que moldaram a cultura digital vêm tentando trazer a comunidade digital para o mundo físico.
São notados, com mais frequência, eventos de culinária, artesanato, jogos e atividades saudáveis que funcionam mais como pontos de encontro para adultos socializarem e encontrarem pessoas com as mesmas afinidades.
Essa migração do mundo digital para o físico vem acontecendo no mundo inteiro. A falta de tempo e o alto custo das saídas levam todos aos cenários digitais, que ainda são acessíveis, e, quando procuram sair, buscam esses mesmos ambientes. É dessa forma que o TCG pode vir a ser uma ótima opção.
Muitos adultos jogaram Magic, Yu-Gi-Oh! ou assistiram a Pokémon e compraram cartas na infância. Hoje, com estabilidade financeira, revisitar esses hobbies é uma opção muito viável, não só por conta da valorização da coleção, mas também por conta da socialização.
Do mundo digital para os encontros presenciais
Por experiência própria, como um nerd que adora reler O Senhor dos Anéis e ficção científica, mora no interior e se mudou para uma cidade sem conhecer outras pessoas, conversar sobre temas geeks, saindo da Marvel, em que é fácil encontrar fãs, não é algo tão simples.
Isso nos leva a grupos no WhatsApp e no Telegram, que são muito divertidos. Existem clubes de leitura, gincanas e muitas atividades que nos fazem revirar os livros para responder rapidamente e pontuar para nosso time, mas, ainda assim, isso não sana a vontade de dialogar presencialmente.
Quando vamos à loja ou aos encontros de card games aos domingos, é quase certeza que encontraremos pessoas de três gerações e algumas crianças, todas com interesses em comum. Além do card game, a relação com jogos digitais, animes, livros e filmes é grande, e o papo vai fácil.
No início do ano, alguns pais ficaram surpresos ao levarem seus filhos para competir em um torneio de Pokémon e descobrirem que eles jogariam contra marmanjos. Depois, ficaram ainda mais surpresos ao verem seus filhos ganharem de algum barbudo, mas isso é outra história.
O nicho de card games não é infantil. Na verdade, mesmo em Pokémon, existe uma participação adulta significativa entre compradores e colecionadores.
Uma pesquisa da Circana mostrou que 19% dos adultos norte-americanos que compraram brinquedos haviam comprado cartas de Pokémon para si mesmos nos seis meses anteriores. Apenas um quarto desses compradores jogava o card game; os demais compravam principalmente para colecionar ou revender. Isso não comprova que os adultos sejam a maioria de todos os colecionadores, mas demonstra que o público adulto tem uma participação relevante no mercado. [4]
Isso nos mostra, pelo menos localmente, que o hobby está amadurecendo, mas ainda não é visto como um hobby adulto.
Durante o encontro geek na FLICIA, pudemos ver um grande movimento de pessoas. E não só isso: houve muito cosplay, e o número de inscritos foi expressivamente maior, mostrando que o interesse pela cultura geek em geral tem crescido.
O evento da feira medieval, organizado em frente ao Ecomuseu, também atraiu bastante público, fortalecendo a ideia de que a procura por eventos alternativos é real.
Um hobby para adultos com pouco tempo
Durante os encontros, é notado o movimento de jovens e crianças em busca de cartas, mas eles não têm tanto interesse em jogar com desconhecidos, enquanto adultos buscam jogar, mas não querem mais despesas.
Por isso, Flesh and Blood tem procurado melhorar seu formato de entrada. O Silver Age tem se mostrado muito promissor. Ele apresenta toda a mecânica do jogo, as classes e as cartas. Mesmo com efeitos mais simples, os decks ainda são fortes, e as partidas duram cerca de 30 minutos.
Esse produto não é voltado apenas para o adolescente; também é voltado para o adulto com tempo reduzido de lazer e que está procurando algo novo sem investir muito.
Mesmo sendo acessíveis, eles não soam como decks budget. Eles têm suas peculiaridades, e a ideia é oferecer partidas rápidas. A pessoa investe cerca de R$ 100 no deck, ele é competitivo, não é necessário fazer upgrade, e ela se diverte.
Inclusive, em certas ocasiões, players preferem comprar o deck para retirar algumas cartas, pois é mais em conta do que comprar a carta no mercado, se considerar o frete.
Esse tipo de produto é a chave para atrair o público de 27 a 40 anos que gosta de cultura geek e tem interesse em card games, mas não quer diluir sua receita em um novo hobby. Afinal, prioridades como casa, carro, escola das crianças ou um novo curso superior abrangem boa parte do orçamento.
Opções para entrar no mundo dos card games
Dito isso, vou apresentar alguns produtos interessantes para adultos que desejam entrar no mundo dos card games.
E afirmo: é uma comunidade aberta, com integrantes de áreas distintas, que buscam um lazer com ótimo custo-benefício. Por mais que a pessoa invista em um bom deck, quando resolve trocar ou parar de jogar, ainda consegue um bom retorno; afinal, são itens colecionáveis.
Silver Age
O formato de entrada de Flesh and Blood. O sistema de rotação, na verdade, é chamado de banco de reservas, ou Reserve Bench.
A comunidade que participa dos eventos vota para retirar três heróis da próxima temporada, enquanto a empresa pode escolher até um herói adicional. Esses heróis ficam temporariamente banidos dos torneios oficiais de Silver Age durante a temporada. [5]
Caso um herói não permaneça no banco de reservas na temporada seguinte, ele volta a ser permitido.
Flesh and Blood não trabalha com uma rotação tradicional de coleções. Por isso, cartas das primeiras edições ainda podem ser válidas em jogos oficiais, desde que sejam legais no formato e não tenham sido banidas. [6]
Sorcery
É um jogo novo que começou a ampliar sua presença no mercado brasileiro recentemente. Em 2025, a Erik’s Curiosa anunciou uma parceria com uma distribuidora para levar Sorcery ao Brasil e a outros países da América Latina. [7]
Ele mescla xadrez com Magic. O jogador precisa montar o tabuleiro com os terrenos e colocar seus heróis para duelar por eles, tendo comandante e interações entre as cartas e os terrenos, o que nos permite criar diversas estratégias.
Além da complexidade, ele se destaca pela arte. Talvez seja o jogo com as cartas mais bonitas da atualidade.
Commander
Existe uma comunidade de Magic em Cianorte e, vira e mexe, eles aparecem para jogar. Commander e Pauper parecem ser os formatos preferidos.
Magic dispensa apresentações: é o principal expoente dos card games, com diversos formatos.
Pokémon
O jogo amadureceu com o público que assistia ao anime no final da década de 1990 e, mesmo mantendo os traços do anime, possui diversas estratégias que atraem o público de todas as idades.
Um convite para conhecer o hobby
Tirando Sorcery, que é um jogo novo, mas já tem previsão de chegada à loja local, os outros já têm produtos na loja. Caso tenha interesse em aprender a jogar ou apenas interagir e conhecer mais, entre em contato.
Me chamo Neto, sou grande fã de O Senhor dos Anéis e de ficção científica em geral, coleciono gibis e, claramente, cartinhas. Jogo Flesh and Blood e me aventuro em Pokémon.
Referências
[1] Reuters — Trading card games are “extremely strong” and here to last, Asmodee CEO says. Publicado em 4 de agosto de 2026.
https://www.reuters.com/business/retail-consumer/trading-card-games-are-extremely-strong-here-last-asmodee-ceo-says-2026-08-04/
[2] ICv2 — Big Growth in Hobby Games in 2025. Publicado em 3 de abril de 2026.
https://icv2.com/articles/markets/view/62035/big-growth-hobby-games-2025
[3] Mintel — Gen Zs now prefer to play social entertainment games than go for a drink in the pub.
https://www.mintel.com/press-centre/gen-zs-now-prefer-to-play-social-entertainment-games-than-go-for-a-drink-in-the-pub/
[4] Circana — U.S. Toy Industry Sales Grow in Early 2025. Dados da pesquisa Omnibus de março de 2025.
https://www.circana.com/post/toy-industry-us-sales-grow-in-early-2025
[5] Flesh and Blood — Silver Age Voting: Information. Regras oficiais da votação para o banco de reservas.
https://fabtcg.com/articles/silver-age-voting-information/
[6] Flesh and Blood — Card Legality Policy. Política oficial de legalidade, banimento e banco de reservas.
https://fabtcg.com/rules-and-policy-center/card-legality-policy/
[7] Sorcery: Contested Realm — Expanding the Realm: Erik’s Curiosa Partners with Cartinha Hobby Distribution. Publicado em 7 de julho de 2025.
https://sorcerytcg.com/news/expanding-the-realm-erik-s-curiosa-partners-with-cartinha-hobby-distribution
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